"A ciência econômica não se contentou apenas com o que Smith e Say haviam ensinado [...] mas desenvolveu um sistema integrado de teoremas que convincentemente demonstrou a absurdidade dos sofismas inflacionistas."
Ludwig von Mises
Impreterivelmente toda criança, ao encarar a miséria existente no mundo, já questionou o porquê de simplesmente não se imprimir dinheiro, distribuindo aos mais carentes. A ingenuidade infantil analisa um dado objetivo, a pobreza, descobre a causa, a ausência de dinheiro representado por papel-moeda, e formula uma solução: imprimir dinheiro.
Qualquer pai com alguma formação costuma destruir a lógica de seu filho afirmando que imprimir dinheiro apenas causaria inflação, não gerando prosperidade. Keynes, casado com uma bailarina russa, nunca teve filhos, mas seria curioso saber qual resposta ele daria a indagação de uma criança.
A Teoria Quantitativa da Moeda postula que alterações na oferta monetária são incapazes de surtir algum efeito na economia real. Uma alteração na disponibilidade do meio circulante apenas acarretaria mudanças nos preços relativos, nada mais. Devemos dizer, no entanto, que essa teoria não condiz com a realidade observável. Keynes sabia disso, porém o resultado de suas reflexões devem ser vistos com cuidado.
John Maynard Keynes analisava uma dada economia em que haveria ociosidade de recursos. Não vamos encarar ainda o fato de que, sob essas condições, toda a ciência econômica é inútil, visto que bens em abundância não são bens econômicos. Por enquanto, vamos seguir dentro das suposições keynesianas. Dentro dessa economia marcada pela ociosidade, teríamos várias fábricas instaladas, mas sem produzir absolutamente nada. O motivo alegado: falta de demanda gerada por uma crise. A ausência de demanda, dado o chamado efeito multiplicador, potencializaria ainda mais os efeitos nefastos da recessão econômica, demitindo funcionários que, por sua vez, demandariam ainda menos, levando o mundo que conhecemos a um buraco sem volta.
A solução, de acordo com Keynes e seus seguidores, poderia se dar através de um aumento da oferta de moeda. Se oferecêssemos moeda para alguns agentes econômicos, esses poderiam ir até a porta da fábrica ociosa e fazer com que essa funcionasse, empregando gente e gerando prosperidade. A produção crescente iria gerar, a posteriori, o lastro para a o papel-moeda impresso. Nesse caso, o sonho da pequena criança teria se realizado: imprimiríamos dinheiro e todos ficariam mais felizes, sem inflação.
O problema dessa análise vem exatamente quando paramos de rodar as impressoras de novas notas. Sem novo dinheiro, a demanda pelos produtos daquela fábrica volta a cair, nos trazendo novamente à crise. A falha de Keynes está em ignorar a fundamental estrutura do capital, tão estudada por Eugen von Boehm-Bawerk e por Friedrich August von Hayek e em tentar negar a que ficou conhecida como Lei de Say.
Apesar de nunca ter sido elaborada nesse formato por Jean-Baptiste Say, a chamada Lei de Say postula que “toda oferta gera sua própria demanda”. Em outras palavras: é o salário pago aos trabalhadores que comprará a produção dos mesmos. A forma como a dita proposição entrou para a história possibilitou muitas interpretações errôneas, que não analisaram a fundo o que o economista francês quis dizer. O keynesianismo está assentado sobre a teórica refutação da Lei de Say, e por isso hoje, quando essa corrente econômica parece retornar das cinzas propondo soluções para a atual crise, devemos resgatar o que Say realmente nos ensinou.
A Lei de Say verdadeiramente postula que não pode haver superprodução absoluta; todo excesso produtivo é obrigatoriamente relativo. Se as pessoas não estão gastando seu dinheiro em determinado bem, significa que estão gastando em outro; se as pessoas não estão consumindo, elas sem dúvida estão poupando. Em nosso exemplo da fábrica, a ociosidade ocorria pelo simples motivo de que as pessoas estavam preferindo consumir outras coisas ao que aquele empresário estava ofertando. Houve um erro na construção de toda aquela instalação produtiva, visto que a percepção da demanda feita pelo empreendedor foi incorreta.
Dar a falsa ilusão de prosperidade para alguns indivíduos levando-os a consumir novos produtos na margem (no caso, o produto da hipotética fábrica) seria apenas capaz de postergar por algum tempo a falência do empresário, mas incapaz de gerar riqueza real. Para piorar o cenário, todo estímulo econômico artificial gerado pelo aparente sucesso da fábrica foi erguido sobre absolutamente nada, e também sofrerá consideravelmente uma vez que as máquinas impressoras pararem de rodar. Como disse Peter Schiff:
“Os governantes querem nos fazer crer que podemos passar o dia inteiro relaxando [...] enquanto as impressoras de dinheiro fazem todo o serviço para nós. O problema surge quando você sai [...] para ir jantar e a única coisa no seu prato, ao invés de uma carne, é uma nota promissória a ser paga em carne”.
A Lei de Say vale e tem que valer para qualquer negócio que seja rentável. Se ela não for obedecida, o empresário quebra, impreterivelmente. O ponto central é: a demanda tem que ser devidamente calculada para o sucesso de uma empresa. Não existe superprodução absoluta.
Boehm-Bawerk abriu o caminho e Hayek nos mostrou como a estrutura do capital é fundamental para entendermos os ciclos de boom e as posteriores crises. Keynes ignorou essas lições quando agregou toda a economia. Sua resposta para a crise propõe que usemos dos métodos que nos levaram ao fundo do poço para dele sair.